Primeira edição do Radar Regulatório, uma análise por mês sobre as regras financeiras que já decidem jogos na América do Sul. Sem enrolação: uma regra, o mecanismo, e a data que importa.
O fio deste mês: as contas que um clube monta nesta temporada são as que a regra vai julgar. No Chile isso já custa pontos na tabela. Na Colômbia e no Brasil, o relógio corre para 2027 e 2028.
Em 20 de maio, o Tribunal de Disciplina da ANFP tirou três pontos da Universidad de Concepción. O motivo não foi esportivo: o clube pagou o IVA de fevereiro em 23 de março, três dias depois do vencimento em 20. A denúncia foi da Unidade de Controle Financeiro. O clube alegou força maior, teve o pedido negado em primeira instância, e em 16 de junho a Segunda Sala lhe deu razão: o gerente-geral havia sido roubado, levaram o celular com o único token que autorizava as transferências, a punição foi revogada e os pontos voltaram.
A decisão de primeira instância deixou uma ideia que sobrevive à revogação: um clube profissional não pode depender de uma única pessoa e um único aparelho para que um pagamento saia no prazo. Isso não é problema de dinheiro, é problema de sistemas. A Segunda Sala perdoou o roubo; não disse que o sistema estava certo.
O outro lado da mesma moeda: no mesmo semestre, uma denúncia da UCF contra o Deportes Limache por ultrapassar 14,1% do teto caiu em 5 de agosto, porque a própria unidade a apresentou um dia fora do prazo. O mérito nunca foi julgado. As duas punições chilenas de 2026 acabaram caindo, uma em recurso e outra por prazo, e os dois clubes pagaram meses de tribunal e advogados por datas de calendário.
O teto de gasto com elenco da ANFP é 70% sobre a média de receitas de três temporadas. Mas a lição do semestre não é o percentual, nem as punições que caíram: é que no Chile o calendário tributário corre no mesmo campeonato que a tabela, e defender-se de uma data custa um semestre. Como a ANFP mede o gasto com elenco, controle por controle (ES).
O Fair Play Financeiro da Dimayor entra em vigor em 2027, desenvolvido com suporte técnico da LaLiga. Três coisas já estão definidas: um princípio de equilíbrio (break-even), demonstrações padronizadas e auditadas entregues à Dimayor, e um teto de 25 jogadores inscritos por clube.
Os limites numéricos de gasto ainda não foram publicados, e não vamos inventá-los. Mas há algo que nenhum clube deveria adiar: as contas de 2027 são as que o sistema vai ler, e são montadas agora. O teto de 25 já é mensurável hoje. Um elenco com 28 inscritos é um corte de 3 que vale a pena planejar antes de virar urgência, não na janela.
O marco da Dimayor, com o definido e o pendente marcados honestamente (ES).
O Sistema de Sustentabilidade Financeira (SSF), da CBF e da ANRESF, funciona por fases. 2026 e 2027 são anos de advertência. As sanções chegam em 2028, e recaem sobre as contas de 2027.
Os números já definidos: na Série A, o déficit não pode superar o maior valor entre R$30 milhões e 2,5% das receitas relevantes; na Série B, o teto de déficit é R$10 milhões. O custo do elenco fica limitado a 70% das receitas, com uma fase de 80% em 2028. A dívida fica limitada a 45% das receitas relevantes de forma definitiva, com uma transição: 60% em 2028, 50% em 2029, 45% em 2030.
Assim como na Colômbia: o ano julgado é 2027, e já está correndo. O SSF completo, controle por controle.
Três países, três calendários, a mesma ideia. A regra não espera o balanço anual: ou cobra durante a temporada, como no Chile, ou julga as contas que você monta hoje, como na Colômbia e no Brasil. O clube que tem cada vencimento e cada teto no mesmo painel que o orçamento não depende da sorte processual de ninguém.
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